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Júri de skinheads retorna com depoimento de testemunha

Encerrado, por volta das 21h20min, o segundo dia de julgamento dos três réus acusados de agredir um grupo de judeus no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, em maio de 2005. Hoje, foram ouvidas seis pessoas, entre testemunhas e informantes.

Amanhã, o Tribunal do Júri retornará aos trabalhos, a partir das 8h30min, com a oitiva da última testemunha. Após, haverá o interrogatório dos três réus e os debates orais.

Estão sendo julgados os réus Valmir Dias da Silva Machado Júnior, Israel Andriotti da Silva e Leandro Maurício Patino Braun, acusados de três tentativas de homicídio qualificado (motivo torpe, meio cruel, recurso que dificultou a defesa dos ofendidos), associação criminosa e crime de discriminação ou preconceito racial. Os fatos ocorreram em 8 de maio de 2005, no bairro Cidade Baixa.

A sessão é presidida pela Juíza de Direito Lourdes Helena Pacheco da Silva, titular do 2º Juizado da 2ª Vara do Júri da Comarca de Porto Alegre.

Depoimentos

O depoimento do ex-Policial Civil que atuou nas investigações abriu a retomada dos trabalhos na parte da tarde. Última arrolada pela acusação, a testemunha disse que os suspeitos eram pessoas muito parecidas. “Todos carecas, fortes e tatuados”. Quando passou a integrar as investigações, já havia três pessoas presas e havia o mandado de segurança para uma quarta pessoa.

Em razão dessa semelhança física, na época, a defesa de um dos réus levantou a possibilidade de não serem aquelas as pessoas culpadas, mas sim outros muito parecidos fisicamente com eles. A instrução processual foi interrompida e o inquérito retornou à Polícia para novas diligências. “Além de apontar novos envolvidos, mantivemos alguns anteriores”, afirmou. “Todos eles se conheciam e eram amigos”, revelou, referindo-se ao segundo grupo identificado.

O ex-Policial não participou da ação de busca  e apreensão promovida nas casas dos réus. A Assistente de Acusação Helena Sant’Anna mostrou materiais apreendidos (roupas associadas a movimentos de skinheads, literaturas, bandeira com símbolo neonazista). Ele informou que não lembra a quem pertencia o material.

“Era um mundo novo para nós. Não sabíamos sequer o que significava o nome “skinhead”. Estávamos no mundo do Orkut, entrei nas comunidades neonazistas e encontrei muitas pessoas (de todo o país), inclusive gaúchos”, explicou.

Um colega e amigo do réu Israel foi ouvido na condição de informante, em um depoimento breve. Foram feitas perguntas apenas por parte do Advogado de defesa do réu, José Paulo Schneider dos Santos. Segundo o informante, o acusado nunca teve nenhuma atitude racista, e que, onde trabalhavam, havia colegas negros, índios, gays e que Israel se dava muito bem com todos eles. E que nunca o viu fazendo apologia ao nazismo. “Não existia isso”, afirmou o informante.

A próxima depoente, também informante, é amiga de infância de Israel. Contou que, na noite anterior aos fatos, esteve com ele, na casa da mãe dele, para comemorar o aniversário dela. Ela disse que nunca o viu com material que faz apologia ao nazismo. “Sempre foi tranquilo. Estudou, trabalhou”. De acordo com a informante, eles dividiam as mesmas amizades e muitas delas eram pessoas negras. “Nunca vi ele ser preconceituoso com ninguém”.

O Professor de jiu-jitsu de Israel na época dos fatos também depôs como informante. Disse que Israel nunca foi forte; tinha o físico “normal”. O cabelo era baixo, mas nunca chegou a ser careca (cabeça raspada). “Sempre foi um aluno dedicado”, afirmou, e disse ainda que eles treinavam com meninas, negros, gays. E que, por isso, ficou surpreso quando soube do ocorrido.

O informante afirmou que procurou o aluno, quando saiu da prisão, para saber a verdade. Israel admitiu que o material nazista e apreendido pela Polícia era dele, mas que iria colocar fora, porque há tempos não fazia mais parte deste movimento. Afirmou que Israel expressou que queria um novo estilo de vida. E que, hoje, o réu é estudioso, “ótimo pai e amigo”.

Caso

Segundo a acusação, na madrugada do dia 08/05/2005, Rodrigo Fontella Matheus, Edson Nieves Santanna Júnior e Alan Floyd Gipsztejn caminhavam pela esquina das ruas Lima e Silva e República, bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, quando foram atacados por um grupo de skinheads, de ideologia neonazista.

As vítimas usavam quipás (pequeno chapéu em forma de circunferência, usado pelos judeus). O grupo de agressores estava dentro do bar Pinguim quando avistaram os rapazes em frente ao estabelecimento. Rodrigo Fontella Matheus foi golpeado com arma branca, socos e pontapés. O crime só não se consumou pois a vítima contou com a intervenção de terceiros que estavam no local, bem como com pronto atendimento médico.

Edson Nieves Santanna Júnior também foi atacado pelo grupo – mediante golpes de arma branca, mas conseguiu escapar e buscar abrigo dentro do bar. Por último, Alan Floyd Gipsztejn foi atacado, mas também conseguiu fugir para o interior de um estabelecimento.

Outros réus

Daniel Sperck – condenado por tentativa de homicídio triplamente qualificado, em 23/03/19, a 14 anos de prisão.

Leandro Jachetti – condenado por tentativa de homicídio triplamente qualificado, em 23/03/19, a 14 anos de prisão.

Marcelo Moraes Cecílio – Em em 23/03/19, houve a desclassificação do crime, que passou a ser o de lesão corporal leve. Foi extinta a punibilidade.

Laureano Vieira Toscani – Condenado por tentativa de homicídio triplamente qualificado, em 19/09/18, a 13 anos de prisão.

Thiago Araújo da Silva – Condenado por tentativa de homicídio triplamente qualificado, em 19/09/18, a 13 anos de prisão.

Fábio Roberto Sturm – Condenado, por tentativa de homicídio triplamente qualificado, em 19/09/18, a 12 anos e oito meses.

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