Luto no trecho: morre Dona Nahyra, símbolo das mulheres no transporte rodoviário do Sul
Pioneira nas estradas, caminhoneira de Não-Me-Toque dedicou mais de sete décadas ao volante e tornou-se referência nacional no setor

A comunidade de Não-Me-Toque e o setor de transporte rodoviário de cargas do Sul do Brasil amanheceram em luto neste domingo com a notícia do falecimento de Nahyra Schwanke, a Dona Nahyra, aos 96 anos. Reconhecida como uma das mulheres que marcaram época nas estradas e apontada por colegas como a caminhoneira mais idosa do país, ela construiu uma trajetória de coragem, pioneirismo e dedicação ao volante.
Nascida em 4 de dezembro de 1929, no interior do Rio Grande do Sul, Nahyra cresceu em meio ao trabalho no campo. Aos 12 anos, já auxiliava na fazenda da família, na localidade de Arroio Bonito, em Sobradinho, conduzindo trator e guiando o arado na colheita de grãos. Foi nesse ambiente que surgiu a paixão pelas máquinas e, principalmente, pelos caminhões que cruzavam as estradas de terra da região.
Na década de 1950, seguiu o caminho esperado para muitas mulheres da época: casou-se e teve sua única filha, Salete. Após a separação, decidiu mudar o rumo da própria história e apostar no sonho que carregava desde a juventude. Em 1958, aos 27 anos, comprou o primeiro caminhão — um Ford S600 amarelo — e iniciou oficialmente a vida profissional nas estradas.
A partir dali, foram mais de 70 anos dedicados ao transporte de cargas, especialmente trigo, arroz e cevada. Dona Nahyra percorreu estradas do Sul e de outras regiões do Brasil em um período em que a presença feminina no setor era rara e, muitas vezes, vista com desconfiança. Enfrentou preconceitos, longas jornadas e as dificuldades naturais da profissão, mas consolidou respeito entre colegas e empresários.
Para muitos caminhoneiros, era a “Rainha das Estradas”. Não apenas pela longevidade na profissão, mas pela postura firme e pelo espírito solidário. Era conhecida por orientar motoristas mais jovens, compartilhar experiências e defender o espaço das mulheres no transporte rodoviário.
A rotina era intensa: entre 12 e 15 horas diárias ao volante, percorrendo de 8 a 10 mil quilômetros por mês. Em manifestações publicadas nas redes sociais, colegas destacaram a dedicação da caminhoneira. “O caminhão era minha vida. E eu vivi cada quilômetro com o coração”, costumava dizer, resumindo a relação de amor que manteve com a profissão ao longo de toda a vida.
O velório acontece na Sala A da Funerária Gräff, em Não-Me-Toque, com cerimônia religiosa marcada para as 17h, seguida de sepultamento no Cemitério Evangélico do município. Familiares, amigos, colegas de estrada e membros da comunidade prestam as últimas homenagens à mulher que transformou sua paixão em história.
Fonte: Folha NMT
Fotos: Arquivo





