Operação Carrasco prende protetora de animais e veterinários por suspeita de eutanásia fraudulenta

Polícia Civil investiga esquema que teria usado pedidos de pix para arrecadar valores destinados a tratamentos que, segundo a apuração, não eram realizados

A Polícia Civil, por meio da 3ª Delegacia de Polícia de Canoas, deflagrou nesta segunda-feira, 15 de junho, a segunda fase da Operação Carrasco, no combate a crimes de maus-tratos a animais, associação criminosa e estelionato. Os alvos da ofensiva são uma protetora de animais e dois veterinários investigados por um suposto esquema de eutanásia fraudulenta de cães e gatos, com desvio de valores arrecadados via pix para tratamentos que, conforme a investigação, não ocorreram.

Durante a ação, foram cumpridas três prisões preventivas e 12 mandados de busca e apreensão. Além das prisões da investigada, atuante na causa de proteção animal, e dos dois veterinários, os policiais apreenderam telefones celulares, computadores e outros materiais que devem auxiliar na continuidade das investigações. Um cão debilitado e sem as patas dianteiras também foi resgatado durante a operação. Segundo a polícia, o animal era utilizado recentemente em pedidos de pix nas redes sociais.

A primeira fase da Operação Carrasco foi deflagrada em quinta-feira, 4 de setembro, com foco na Secretaria Especial de Bem-Estar Animal de Canoas. Na ocasião, foram cumpridos mandados de busca na sede do órgão municipal, na residência da investigada, em um sítio onde está registrado seu Instituto Nacional de Proteção Animal e na casa de uma médica veterinária que atuava junto à Secretaria. Após a análise do material apreendido, a Polícia Civil apontou que o número de eutanásias no local estava acima do esperado para o perfil dos animais recolhidos e também em relação a anos anteriores.

Na nova fase, os investigadores aprofundaram a análise do material apreendido e identificaram, conforme a polícia, a relação direta da principal investigada, que se apresentava como protetora dos animais, com veterinários de fora da Secretaria. A apuração indica que animais resgatados eram encaminhados para eutanásia mesmo em situações nas quais ainda haveria alternativas de tratamento.

Em um dos casos, a investigação aponta que uma veterinária informou a possibilidade de uma doença e questionou se seria realizado teste antes de qualquer decisão. A resposta atribuída à ex-secretária teria sido de autorização para seguir diretamente com a eutanásia, sem confirmação diagnóstica prévia. Para os investigadores, a conduta contrasta com a prática clínica recomendada, já que a confirmação dependeria de exame específico.

A Polícia Civil também identificou que, na mesma data, a investigada teria divulgado nas redes sociais um pedido de apoio financeiro para custear o suposto tratamento do animal, enquanto, nos bastidores, autorizava a eliminação. Para os policiais, esse contraste reforça a suspeita de que havia arrecadação de recursos associada a uma narrativa pública de cuidado que não correspondia ao destino efetivo dos animais.

Em outra situação, a ex-gestora teria tratado com uma veterinária sobre um animal com suspeita de esporotricose. Embora a profissional tenha explicado que havia possibilidade de tratamento, a ordem registrada pela investigação foi interpretada como indicação para realização de eutanásia.

De acordo com a apuração, a investigada ostentava nas redes sociais fotos de animais com deficiência que dizia adotar e salvar, usando essa imagem para legitimar as captações financeiras. A polícia aponta que, mesmo após a exoneração do cargo de secretária, o esquema continuou a operar por meio da associação mantida no sítio.

Ainda conforme a investigação, a investigada atuava desde 2020 e realizou 549 vaquinhas. O instituto teria recebido R$ 672.670,39, doados por 14.545 pessoas.

“Eles organizaram-se como uma estrutura criminosa. A morte de cada cão não era um ato de piedade, mas um ato de lucro. A polícia agora busca os registros de microchip de todos os animais que sumiram para, quem sabe, tentar identificar quantas vidas foram sacrificadas em nome de pix. A Operação Carrasco marca o fim de um ciclo de impunidade. A prisão de quem deveria ser a protetora dos animais ecoa, alertando sobre a necessidade de fiscalização rigorosa nas ONGs e Secretarias de Bem-Estar Animal”, afirmou a delegada Luciane Bertoletti.

O delegado Cristiano Reschke, diretor da 2ª Delegacia de Polícia Regional Metropolitana de Canoas, também destacou a gravidade do caso. “O que a Operação Carrasco desvendou foi um cenário de crueldade extrema e manipulação perversa da solidariedade pública. A investigada não apenas decidia pela morte deliberada de animais que poderiam ser salvos, mas utilizava o sofrimento dessas criaturas como isca emocional para um esquema de estelionato financeiro”, afirmou.

A Polícia Civil gaúcha segue com as investigações para apurar quantos animais podem ter sido vítimas do esquema.

Fonte: Polícia Civil do Rio Grande do Sul / Foto: Miguel Noronha

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