A Polícia Civil do Rio Grande do Sul deflagrou, na manhã desta terça-feira, 9 de junho, a Operação Interface, uma ofensiva interestadual para desarticular uma associação criminosa especializada em estelionatos eletrônicos por meio do golpe do falso executivo.
A ação foi conduzida pela 3ª Delegacia de Polícia de Canoas e contou com apoio do Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab), da Coordenação-Geral de Crimes Cibernéticos do Ministério da Justiça, além das Polícias Civis de Mato Grosso e do Rio Grande do Norte.
Ao todo, foram cumpridas 87 medidas cautelares, sendo 60 mandados de busca e apreensão e 27 mandados de prisão nos estados de Mato Grosso e Rio Grande do Norte. Também foram determinados os bloqueios de contas bancárias vinculadas aos investigados. Até o momento, 16 pessoas foram presas.
Durante a operação, foram apreendidos carros, motos, celulares, chips e R$ 15 mil em espécie.
A investigação apurou que a organização criminosa causou um prejuízo de R$ 193.601,89 a uma empresa do setor industrial. O grupo utilizava aplicativos de mensagens para se passar por executivos e induzir funcionários do setor financeiro a realizar transferências bancárias para contas controladas pelos criminosos.
O caso teve como uma das vítimas uma assistente financeira de uma indústria, que acreditou estar recebendo instruções legítimas do presidente da empresa. A fraude ocorreu em quarta-feira, 5 de fevereiro, quando ela recebeu mensagens de um número que exibia a fotografia do executivo. Como o presidente estava em viagem e costumava solicitar pagamentos por mensagens, a funcionária não identificou irregularidades inicialmente.
Seguindo as orientações recebidas, a vítima realizou transferências bancárias para contas indicadas pelo suposto diretor. Dois dias depois, ao perceber que os pagamentos eram elevados e haviam sido solicitados em curto intervalo de tempo, ela desconfiou da situação. Ao verificar o número utilizado, constatou que ele não correspondia ao telefone verdadeiro do presidente da empresa.
A partir do registro da ocorrência, as diligências apontaram que o golpe foi executado a partir de Mato Grosso, especialmente da região de Cuiabá, local já conhecido pelas autoridades pela incidência de crimes semelhantes, como os golpes do falso intermediário e do falso parente. Depois, os valores foram transferidos para outros criminosos residentes em outro estado.
As apurações também revelaram uma estrutura criminosa organizada, com diferentes funções. Entre elas estavam os chamados “conteiros”, pessoas que cediam contas bancárias para receber recursos provenientes de crimes; os “tripeiros”, responsáveis por recrutar titulares de contas em troca de comissões; além dos gerentes do esquema. A investigação também identificou o executor e o articulador do golpe, ambos com extensa ficha criminal por delitos semelhantes.
Segundo a Polícia Civil, os investigados utilizavam uma estratégia de pulverização financeira para dificultar a recuperação dos valores e o rastreamento dos recursos. O dinheiro era rapidamente fragmentado e transferido para dezenas de contas em diferentes estados brasileiros, muitas delas vinculadas a instituições financeiras digitais.
De acordo com a delegada Luciane Bertoletti, esse tipo de golpe tem se tornado cada vez mais comum no ambiente corporativo brasileiro.
“Os criminosos estudam a estrutura das empresas, identificam executivos e funcionários com acesso ao setor financeiro e utilizam fotografias, nomes e informações públicas para criar perfis falsos extremamente convincentes”, afirmou.
A Polícia Civil alerta que empresas devem adotar protocolos rígidos de confirmação para qualquer solicitação de transferência bancária, especialmente quando envolver alteração de contas, pagamentos urgentes ou valores expressivos. A orientação é que toda movimentação financeira relevante seja validada por mais de um canal de comunicação e, sempre que possível, por contato direto com o responsável pela solicitação.
“A operação representa mais um passo no combate às organizações criminosas especializadas em fraudes eletrônicas, modalidade que vem movimentando milhões de reais em todo o país e exigindo atuação integrada entre unidades policiais, instituições financeiras e órgãos de inteligência”, destacou a delegada Bertoletti.
O diretor da 2ª Delegacia de Polícia Regional Metropolitana, delegado Cristiano Reschke, também ressaltou a gravidade da profissionalização desses grupos criminosos.
“O que testemunhamos nos últimos anos é uma transição alarmante: grupos que antes atuavam em crimes convencionais migraram para o ambiente digital, desenvolvendo uma especialização técnica sem precedentes em estelionatos e extorsões. Mais do que quadrilhas isoladas, identificamos verdadeiros ecossistemas do crime que operam como ‘escolas’, onde táticas de fraude são disseminadas e novos criminosos são recrutados e treinados”, afirmou.








