MPRS desarticula esquema de “gado de papel” que movimentou R$ 100 milhões na Fronteira Oeste

Operação Boi Fantasma mira lavagem de dinheiro do tráfico de drogas por meio da simulação de comércio de bovinos inexistentes em Alegrete

O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) deflagrou, nesta terça-feira, 9 de junho, a Operação Boi Fantasma, terceira etapa da Operação Convergência Nacional RS, para desarticular um esquema criminoso de lavagem de dinheiro do tráfico de drogas baseado na simulação de comércio de bovinos inexistentes, conhecido como “gado de papel”. A ação teve como foco o município de Alegrete, na Fronteira Oeste.

A operação foi conduzida pelo 9º Núcleo Regional — Campanha — do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), em conjunto com a Brigada Militar (BM) e a Polícia Penal. Também houve apoio do Gaeco do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), da Promotoria de Justiça de Defesa do Consumidor de Porto Alegre e da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi/RS).

De acordo com a investigação, a organização criminosa teria movimentado cerca de R$ 100 milhões por meio do uso de propriedades rurais arrendadas, emissão de documentos falsos e transações fictícias envolvendo bovinos que não existiam. Ao todo, foram cumpridos 35 mandados de busca e apreensão e oito mandados de prisão preventiva.

As ordens judiciais foram executadas em Alegrete, Quaraí, Pelotas, Capão do Leão, Itaqui, Canoas e São Leopoldo, além de ações em presídios de São Gabriel, Uruguaiana e Cachoeira do Sul. Em Santa Catarina, também houve cumprimento de medidas em Palhoça e Joinville.

Até as 14h30 desta terça-feira, a operação havia resultado em nove prisões, sendo uma em flagrante. Também foram apreendidos 46 celulares, oito aparelhos eletrônicos, duas armas, dois veículos e cerca de R$ 37 mil em dinheiro. Um imóvel foi sequestrado judicialmente.

Segundo o coordenador estadual do Gaeco, Rogério Meirelles Caldas, a operação representa uma ação estratégica no enfrentamento às organizações criminosas, com foco no ataque à estrutura financeira das facções. Ele também destacou a atuação conjunta da Brigada Militar e da Polícia Penal no cumprimento dos mandados e na transferência do apenado apontado como líder do esquema.

A investigação começou a partir de relatórios técnicos da Brigada Militar e foi desenvolvida ao longo de 10 meses. Conforme o MPRS, o grupo, formado por até 30 pessoas, simulava atividade agropecuária para ocultar recursos ilícitos. Para isso, arrendou duas propriedades rurais em Alegrete e utilizou laranjas para emissão de notas fiscais e Guias de Trânsito Animal (GTAs), sem movimentação real de rebanho.

Monitoramentos, inclusive com uso de drones, confirmaram a inexistência de gado nas áreas investigadas, apesar da intensa movimentação documental. O esquema seria comandado por um traficante conhecido como “rei do gado”, que atuava de dentro de um presídio, com divisão de tarefas entre familiares e terceiros.

Ainda conforme a apuração, somente cinco integrantes do núcleo principal movimentaram cerca de R$ 24,8 milhões, principalmente nos últimos dois anos. Parte dos valores teria sido direcionada a plataformas de apostas, inclusive fora do Estado, como etapa final para dissimular a origem dos recursos ilícitos.

O líder da facção será transferido para o Módulo de Segurança Máxima da Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc).

A investigação apontou indícios de falsidade ideológica, vendas fictícias entre integrantes do grupo e movimentações financeiras incompatíveis com a renda declarada. Provas documentais, fiscais, bancárias e técnicas, incluindo dados do sistema de defesa agropecuária, indicaram inconsistências como o tempo reduzido de permanência dos supostos animais nas propriedades, incompatível com o ciclo real de criação.

Além das apreensões realizadas durante a operação, houve o bloqueio de R$ 100,7 milhões e o sequestro judicial de 15 veículos e de um imóvel.

Como funcionava o esquema:

Origem ilícita: recursos provenientes do tráfico de drogas.

Arrendamento rural: uso de duas propriedades em Alegrete em nome de laranja e de familiar do principal investigado.

Simulação de atividade: emissão de notas fiscais e GTAs sem existência real de gado.

Transações fictícias: compra e venda simuladas de bovinos inexistentes para criar lastro financeiro.

Pulverização de valores: circulação de recursos em contas bancárias de terceiros.

Integração final: envio de valores a empresas e plataformas, como apostas, para ocultar a origem do dinheiro.

Dados da operação:

Oito prisões preventivas

35 mandados de busca e apreensão

30 investigados

Bloqueio de R$ 100,7 milhões

Sequestro e apreensão de 15 veículos e de um imóvel

Ações em 10 cidades do Rio Grande do Sul e duas de Santa Catarina

Ações em três presídios do Rio Grande do Sul

Transferência do líder da facção para o Módulo de Segurança Máxima da Pasc

Fonte: Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS)

Longevitá

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo