Animais, família e ambiente: veterinária da Veranópolis aposta em olhar sistêmico para além dos sintomas
Há dez anos na profissão, Paula Farina uniu a formação em Medicina Veterinária às terapias integrativas e hoje atende famílias multiespécies à distância
Quando escolheu a profissão, Paula Farina ainda era criança. Filha única e cercada por animais de estimação, conta que os bichos eram seus companheiros e que não tinha dúvidas quando alguém perguntava o que queria ser no futuro: “médica de bicho”. Uma década depois de se formar em Medicina Veterinária, aquela relação construída ainda na infância ganhou novos significados e levou a profissional a uma área pouco conhecida na região: a medicina veterinária sistêmica.
O caminho surgiu a partir da união entre a profissão e outro interesse antigo de Paula: o autoconhecimento e as terapias integrativas. Ao longo dos atendimentos, ela diz ter começado a observar situações que, na sua percepção, não se limitavam aos sintomas físicos apresentados pelos animais.
— Depois de formada, comecei a perceber várias situações dentro dos atendimentos envolvendo os animais e as pessoas que traziam os animais. Isso tudo ia muito além do que a gente consegue enxergar apenas através de exames, de um diagnóstico, pelos sintomas físicos — relata.
Foi a partir dessa percepção que Paula passou a incorporar práticas integrativas ao trabalho veterinário. Médica veterinária sistêmica e terapeuta de famílias multiespécies, ela realiza atendimentos de forma remota.
O que é a veterinária sistêmica?
Para Paula, o princípio da abordagem está em observar além do animal, e perceber o contexto no qual ele está inserido. Isso inclui a convivência com os tutores e o ambiente familiar.
— A medicina veterinária sistêmica, para mim, significa ampliar o olhar. Continuo sendo médica veterinária, faço toda essa parte de consulta, avaliação, os exames, isso tudo é muito importante. Valorizo toda essa parte, mas eu observo o animal dentro do contexto da família — explica.
Na prática adotada por Paula, o primeiro passo continua passando pela avaliação veterinária convencional. Depois, ela realiza uma ficha detalhada sobre o animal, sua rotina e a família para definir quais abordagens complementares serão utilizadas. A veterinária ressalta que o trabalho sistêmico não substitui consultas, exames, diagnósticos ou tratamentos convencionais.
— Eu acredito na medicina baseada em diagnóstico e tratamento, nunca vou descartar isso. Esse trabalho realmente é um complemento para quem está disposto a olhar além do que o sintoma está mostrando. Eu sempre reforço a importância das consultas, dos exames, do acompanhamento, mas as terapias vêm para somar. Nunca para substituir — afirma.
Família também entra no atendimento
Um dos diferenciais da abordagem, segundo Paula, é considerar a relação estabelecida entre os animais e as pessoas com quem convivem. Ela relata que muitos clientes chegam inicialmente buscando atendimento exclusivamente para o pet e, ao longo do processo, passam a participar das práticas propostas.
— No geral, tenho percebido que as pessoas chegam até mim para tratar o animal só. Elas não têm ainda essa noção de que engloba muito mais. Engloba o ambiente, engloba eles. No geral, estão dispostos a vir em virtude do animal, mas depois vão se abrindo e entendendo que, para o animal também ficar bem, o ser humano precisa estar bem — diz.
Para Paula, compreender esse vínculo é parte central do trabalho.
— O meu objetivo é que as pessoas criem essa consciência de que nós temos uma relação, que é o encontro com esses animais. Quando a gente convive com eles, isso vira um vínculo, que é a conexão mesmo — explica.
Reiki e outras práticas complementares
Entre as técnicas utilizadas nos atendimentos está o Reiki, prática integrativa baseada na imposição ou aproximação das mãos e que Paula conheceu inicialmente em sua própria trajetória de autoconhecimento.
Além do Reiki, Paula trabalha com mesas radiônicas e com uma prática que chama de comunicação animal telepática. É justamente essa uma das áreas que mais desperta curiosidade sobre o trabalho.
Paula relata que começou a atuar com comunicação animal há cerca de sete anos e que a procura aumentou desde então. Segundo ela, a prática busca estabelecer uma conexão intuitiva com o animal para compreender comportamentos ou situações vivenciadas pela família. Paula também relata utilizá-la antes de mudanças na rotina, como viagens, chegada de um bebê ou períodos em que o animal ficará aos cuidados de outras pessoas.
— É um caminho terapêutico muito profundo, porque o meu eu superior, a minha consciência, se conecta com a consciência deste animal. E para quê? Para a gente buscar compreender a questão que ele está apresentando, que seja comportamental, seja um sintoma, uma doença recorrente — descreve.
Vínculo após a morte
Entre os atendimentos que Paula diz receber estão pedidos de tutores que enfrentam o luto pela morte de um animal. Ela afirma realizar sessões de comunicação animal também nesses casos, dentro das crenças que orientam sua prática.
— Inclusive, uma das áreas que o pessoal mais me chama é para se comunicar com animais que já partiram. É doloroso, com certeza, é triste quando eles vão embora, mas tem essa possibilidade. Sempre fica aquela sensação de “poderia ter feito mais” ou “gostaria de levar uma mensagem, receber uma mensagem” — conta.
Uma atuação ainda pouco conhecida na região
Apesar do crescimento da procura por práticas integrativas voltadas aos animais, Paula afirma não conhecer outros médicos veterinários que desenvolvam a mesma abordagem na região da Serra. A rede profissional com a qual mantém contato é formada principalmente por professores e colegas de formação de Porto Alegre e de estados como Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais.
Depois de dez anos de profissão, Paula resume o trabalho como uma tentativa de ampliar a compreensão sobre a convivência entre espécies sem abandonar aquilo que aprendeu na formação veterinária.
— Todos fazem parte, todos pertencem, independentemente da espécie, humano ou animal, e todos são bem-vindos nesse sistema — resume.
