Execução à luz do dia expõe disputa entre facções em Veranópolis, diz delegado
Bruno da Silva, de 25 anos, foi morto no Beco do Girelli; Polícia Civil aponta ação planejada, relaciona crime à reorganização de grupos ligados ao tráfico iniciada em abril e investiga incêndio ocorrido horas depois como possível retaliação
O homicídio de Bruno da Silva, de 25 anos, na tarde de domingo, 23 de agosto, elevou para quatro o número de homicídios registrados em Veranópolis em 2026 e voltou a colocar em evidência uma disputa envolvendo o tráfico de drogas e grupos criminosos que atuam no município.
Em entrevista na segunda-feira, 24 de agosto, o delegado titular da Delegacia de Polícia de Veranópolis, Tiago Madalosso Baldin, apresentou novos detalhes da investigação e classificou a execução como uma ação rápida, organizada e com elevado grau de planejamento.
Bruno foi morto por volta das 16h, no Beco do Girelli, escadaria com acesso pela Rua São Francisco de Assis, no bairro Santo Antônio, em uma região também conhecida como Segundinha.
Segundo Baldin, a principal linha de investigação aponta que o crime está inserido em um contexto de disputa entre grupos criminosos ligados ao tráfico de drogas, com reflexos de uma sequência de homicídios iniciada em abril.
Executores aguardavam a chegada de Bruno
As informações apresentadas pelo delegado atualizam a dinâmica inicialmente divulgada nas primeiras horas após o homicídio.
Informações preliminares indicavam que dois homens vestidos de preto teriam passado de motocicleta e atirado contra Bruno. Com o avanço dos levantamentos, porém, a Polícia Civil passou a trabalhar com a informação de que os dois executores já estavam na região aguardando a chegada da vítima.
Bruno retornava de uma confraternização e chegava à residência onde morava acompanhado de familiares e pessoas próximas. Entre elas estavam a companheira, que está grávida, duas crianças e outros familiares e amigos.
Conforme o delegado, dois homens vestidos inteiramente de preto e com os rostos cobertos por máscaras estavam escondidos em uma residência localizada a poucos metros do portão de entrada da vítima.
Quando Bruno chegou, os criminosos deixaram o imóvel. Durante a aproximação, teriam gritado “polícia, polícia” e, em seguida, efetuado os disparos.
Apesar de o homicídio ter ocorrido em uma área densamente habitada, em um beco estreito e com várias pessoas próximas, os tiros foram direcionados contra Bruno. Para a Polícia Civil, a dinâmica reforça a hipótese de uma execução planejada e com alvo previamente definido.
Segundo Baldin, Bruno possuía antecedentes policiais e já havia sido preso em Veranópolis, com registros relacionados, entre outros delitos, a homicídio, tráfico de drogas e porte ilegal de arma de fogo.
Carro aguardava criminosos para a fuga
A investigação aponta que o planejamento não se restringiu à execução. De acordo com Baldin, um automóvel já estava preparado para retirar os autores da região imediatamente após o homicídio.
Depois dos disparos, os dois homens deixaram o Beco do Girelli e chegaram ao veículo, onde um terceiro integrante do grupo os aguardava para conduzir a fuga.
O automóvel seguiu pela região da Rua São Francisco de Assis, passando pelas imediações da Rua Capitão Pelegrino Guzzo e da Rua Vereador Ademir Simonetto, antes de deixar a área urbana e seguir em direção à BR-470.
Nas proximidades da comunidade de Monte Bérico, no interior de Veranópolis, o carro utilizado na fuga foi incendiado. A Brigada Militar confirmou que o veículo encontrado em chamas estava relacionado à fuga dos suspeitos.
Conforme a investigação, um segundo automóvel estava preparado para dar continuidade à fuga, recolhendo os três envolvidos — os dois executores e o motorista do primeiro carro.
Para a Polícia Civil, a logística demonstra que não se tratou de uma ação improvisada ou provocada por um encontro ocasional entre vítima e autores.
Polícia vê semelhança com execução de abril
Um dos aspectos considerados relevantes pelos investigadores é a semelhança entre a fuga registrada após a morte de Bruno e o homicídio ocorrido na quarta-feira, 15 de abril, no Centro de Veranópolis.
Naquela ocasião, Jonas de Vargas foi morto dentro de uma lavagem de veículos na Rua Ernesto Alves. Segundo a Polícia Civil, pelo menos 100 disparos, efetuados com uma pistola e uma submetralhadora, foram realizados durante a execução.
O veículo suspeito de ter sido utilizado pelos autores foi encontrado incendiado posteriormente na Linha República, no interior do município.
Baldin apontou forte semelhança no modus operandi, especialmente pelo planejamento prévio, pela participação de mais de um criminoso, pelo uso de veículo preparado para a fuga e pela posterior destruição do automóvel empregado diretamente na ação.
Na avaliação da Polícia Civil, o homicídio de Jonas representou um importante ponto de ruptura na organização de grupos criminosos ligados ao tráfico de drogas em Veranópolis.
Segundo a investigação, a morte provocou uma reorganização das forças envolvidas no comércio de entorpecentes, desencadeando novas ações violentas.
A preocupação da Polícia Civil aumentou durante a madrugada de segunda-feira, 24 de agosto.
O imóvel onde, conforme a investigação, os dois executores teriam permanecido escondidos aguardando a chegada de Bruno foi alvo de uma tentativa de incêndio criminoso.
O fogo foi controlado e ninguém ficou ferido. A Polícia Civil investiga a ocorrência como uma possível retaliação ao homicídio registrado poucas horas antes.
Para Baldin, o episódio é especialmente preocupante porque ocorreu em uma região com grande concentração de residências. Um incêndio de maiores proporções poderia se espalhar rapidamente e atingir pessoas sem qualquer relação com a disputa criminosa.
A sequência de ocorrências reforça, segundo o delegado, o risco de uma escalada de represálias entre grupos rivais.
Planejamento dos criminosos dificulta identificação
Outro aspecto destacado por Baldin é o nível de preparação apresentado pelos autores.
O uso de roupas pretas, máscaras, local previamente escolhido, veículo de apoio, segundo automóvel para a continuidade da fuga e incêndio do primeiro carro são elementos que, na avaliação policial, demonstram uma execução organizada.
O delegado classificou a atuação como de caráter “profissional” e afirmou que os envolvidos adotaram diferentes medidas para dificultar a identificação.
A Polícia Civil trabalha com levantamento de imagens, depoimentos, análise da movimentação dos veículos, informações de inteligência e outros elementos técnicos para tentar individualizar a participação de cada envolvido.
Baldin reconhece que a estrutura utilizada pelos criminosos pode tornar a investigação mais complexa, mas afirma que a delegacia busca identificar executores, motorista, eventuais apoiadores e possíveis mandantes.
Delegado alerta para dinheiro do tráfico que financia estrutura criminosa
Durante a entrevista, Baldin também ampliou a análise para além dos autores materiais dos homicídios. Segundo ele, o tráfico de drogas é uma das principais fontes de financiamento da estrutura necessária para crimes dessa natureza.
O delegado destacou especialmente o comércio de cocaína, apontado como responsável por uma elevada movimentação financeira para organizações criminosas.
Segundo Baldin, o dinheiro obtido com a venda de entorpecentes permite financiar aquisição de armas, obtenção de veículos, pagamento de pessoas para executar crimes e contratação de criminosos de outras cidades.
O delegado também ressaltou que armas utilizadas por grupos criminosos muitas vezes entram ilegalmente no país pelas fronteiras, alimentando uma cadeia que passa pelo comércio de drogas e termina em episódios de violência.
Dados baseados nos indicadores da Secretaria da Segurança Pública apontam que Veranópolis registrou cinco ocorrências de tráfico em julho de 2026, contra duas no mesmo mês do ano anterior. Na microrregião, os registros passaram de seis para 14 no período.
Para Baldin, o impacto do consumo de entorpecentes não se limita ao usuário ou ao ponto de venda. O dinheiro movimentado pelo mercado ilegal ajuda a financiar estruturas criminosas utilizadas posteriormente em execuções e disputas territoriais.
Violência coloca toda a comunidade em risco
O delegado também demonstrou preocupação com os efeitos de uma sequência de homicídios sobre Veranópolis.
Além da perda de vidas, episódios dessa natureza provocam sensação de insegurança, prejudicam a imagem do município e representam risco direto para moradores que não possuem relação com os grupos criminosos.
No homicídio de Bruno, familiares, crianças e outras pessoas estavam a poucos metros dos disparos. Horas depois, um imóvel situado em uma região densamente habitada foi incendiado.
Segundo Baldin, esses episódios mostram que uma disputa inicialmente concentrada no meio criminoso pode colocar toda a população em risco.
“O homicídio traz índices de violência ruins para o comércio, a indústria e o turismo, além do risco constante de balas perdidas atingirem inocentes”, afirmou o delegado.
A Delegacia de Polícia de Veranópolis mantém as investigações sobre a execução de Bruno da Silva e sobre o incêndio registrado horas depois.
A prioridade é reconstruir a movimentação dos envolvidos antes e depois do crime, identificar todos os participantes e verificar quem teria determinado a execução.
Para a Polícia Civil, os acontecimentos registrados entre a tarde de domingo, 23 de agosto, e a madrugada de segunda-feira, 24 de agosto, indicam que a disputa envolvendo o tráfico exige atenção. A investigação também busca evitar que novas retaliações ampliem a sequência de violência no município.
