El Niño de 2026 quebra recorde histórico e ainda pode ganhar força
Fenômeno alcança anomalia inédita no Pacífico Equatorial, supera grandes episódios das últimas décadas e mantém atenção elevada para impactos climáticos no Brasil
O El Niño de 2026-2027 atingiu uma intensidade sem precedentes na série observacional moderna, segundo dados da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA) analisados pela MetSul Meteorologia. A anomalia da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4, área central do Pacífico Equatorial usada como referência para monitorar o fenômeno, chegou a +3,1°C pelo índice ONI, ultrapassando os +3,0°C registrados no forte episódio de 2015-2016. O novo recorde também supera marcas observadas nos grandes eventos de 1982-1983 e 1997-1998.
A intensidade atual já vinha sendo sinalizada pela rapidez com que o aquecimento avançou ao longo de 2026. O patamar de +2°C foi alcançado ainda na semana de 8 de julho, muito antes do observado em outros Super El Niños recentes. Abaixo da superfície do oceano, uma forte onda de Kelvin transporta grande quantidade de água quente em direção ao Leste, com anomalias que chegaram a superar 10°C nos primeiros 200 metros de profundidade em seu núcleo. Ao mesmo tempo, o enfraquecimento dos ventos alísios e sucessivos pulsos de ventos de Oeste favorecem a transferência desse calor para a superfície e sustentam a intensificação do fenômeno.
Apesar do recorde já confirmado, o El Niño ainda pode ganhar mais força até o fim de 2026. Projeções de longo prazo do modelo europeu ECMWF apontam para um possível pico entre novembro e dezembro, enquanto o índice MEI, que combina informações oceânicas e atmosféricas, chegou a +2,5 no bimestre julho-agosto, maior valor para esse período desde o início da série da NOAA, em 1979. A possibilidade de um evento excepcionalmente intenso, porém, não significa automaticamente que enchentes, secas ou tempestades também alcançarão recordes, já que os efeitos dependem da interação do El Niño com outros padrões atmosféricos.
No Brasil, os impactos costumam variar bastante entre as regiões. Norte e Nordeste tendem a enfrentar redução das chuvas e maior risco de seca e queimadas, enquanto Centro-Oeste e Sudeste podem apresentar respostas mais irregulares, combinando períodos de calor com alterações na precipitação. No Sul, o fenômeno historicamente favorece chuvas acima da média, temporais, granizo, vendavais, ciclones e episódios de enchente, principalmente entre o inverno e a primavera do primeiro ano e no outono seguinte. A MetSul ressalta, entretanto, que a intensidade recorde do El Niño não permite concluir, por si só, que o Sul terá as maiores enchentes já registradas.
