A Polícia Federal aponta indícios de que Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, teve conhecimento antecipado de investigações e de possíveis medidas que poderiam ser adotadas contra ele antes de sua primeira prisão, ocorrida em novembro. As informações constam em documentos da Operação Compliance Zero que tiveram o sigilo retirado no Supremo Tribunal Federal (STF).

Segundo a PF, a análise do celular apreendido com Vorcaro revelou mensagens e anotações que indicariam que ele recebia informações sobre movimentações de investigadores. Na quinta-feira, 30 de outubro, 17 dias antes da prisão, o então banqueiro registrou nomes de integrantes da Polícia Federal e do Ministério Público que teriam participado de reuniões no Banco Central.

Em uma das mensagens, Vorcaro afirmou ter recebido informações de pessoas de dentro do Banco Central sobre encontros com investigadores. Para a Polícia Federal, o conteúdo reforça a suspeita de que ele acompanhava, com antecedência, os desdobramentos de uma investigação que tramitava sob sigilo.

Outro elemento analisado pelos investigadores é uma anotação feita às vésperas da prisão. Nela, Vorcaro perguntou a um interlocutor se ele tinha proximidade com Ricardo Augusto Soares Leite, juiz federal que posteriormente assinaria a ordem de prisão preventiva.

O registro dizia: “Vocês são próximos? Ricardo Soares Leite, 10 vara criminal federal”. A referência seria à 10ª Vara Criminal Federal. A PF considera o episódio mais um indício de que o empresário tinha acesso antecipado a informações sobre os movimentos do inquérito.

As mensagens também revelariam preocupação crescente com uma possível ação policial. No sábado, 15 de novembro, dois dias antes de ser preso, Vorcaro questionou se precisaria estar fora do país na segunda-feira seguinte.

No domingo, 16 de novembro, ele voltou a perguntar sobre a possibilidade de alguma medida ocorrer na manhã seguinte e mencionou eventual atuação junto a autoridades para tentar conter ou adiar a ação.

Na noite de segunda-feira, 17 de novembro, Vorcaro foi detido no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, quando se preparava para deixar o Brasil em um jatinho. A Polícia Federal tratou a movimentação como suspeita de tentativa de fuga.

A defesa, por outro lado, sustenta que a viagem aos Emirados Árabes Unidos tinha como objetivo concluir negociações envolvendo a venda do Banco Master e afirma que o próprio Banco Central havia sido informado sobre o deslocamento.

No despacho que tornou públicos os documentos, o ministro André Mendonça registrou que, na avaliação da autoridade policial, as mensagens indicariam que Vorcaro teve conhecimento, com “significativa antecedência”, de investigações que posteriormente resultaram em medidas contra ele.

A apuração também considera a hipótese da existência de uma rede de monitoramento e influência voltada à obtenção de informações sigilosas.

O caso permanece sob investigação. Até o momento, não há decisão judicial definitiva que estabeleça de que forma Vorcaro teria obtido as informações nem eventual responsabilidade de outras pessoas no possível vazamento de dados sigilosos.